Ilustração de capa: A Pública.

Em um mundo utópico, quimérico e ideal, o Dia Internacional da Mulher seria especialmente reservado para receber flores, para comemorar a tão desejada equidade! Ou seja, após décadas de lutas pelos direitos das mulheres, as pluralidades, as diversidades seriam respeitadas e as oportunidades seriam as mesmas para todas e todos independente de gênero. Finalmente, teríamos igualdade e justiça no mundo do trabalho, na divisão das atividades domésticas, nas tomadas de decisões, nas garantias de políticas públicas, e no direito de viver, sem sofrer qualquer tipo de violência.

Que comemoremos o Dia Internacional das Mulheres, que recebamos flores, mas que essa comemoração seja para refletir sobre uma história secular de muitos enfrentamentos, vitórias, conquistas e perdas. Que seja para lembrar que no mundo real, todos os dias é dia de defender a vida das mulheres. O aumento do número das mais diversas violências não cessa. 

Em 2020, os postos de trabalho foram duramente afetados. Com a crise sanitária, econômica e social que afeta o país, a participação da mulher no mercado de trabalho é a mais baixa dos últimos 30 anos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA). Embora a desigualdade de gênero seja histórica, ela se aprofundou ao longo da pandemia. Diante das adversidades, com os filhos em tempo integral dentro de casa, à mulher coube essa responsabilidade de se dedicar à casa. 

O conceito patriarcal e machista de que ao homem cabe o sustento e à mulher o cuidado dos filhos, da casa, dos idosos foi cristalizado e escancarado. E isso sem pormenorizar a situação das mulheres que tem a responsabilidade de suprir sozinhas as condições de sobrevivência da família: Desempregadas, expostas à falta de políticas públicas e com o auxílio emergencial suspenso pelo governo Bolsonaro, a tragédia é pré-anunciada: vulnerabilidade social, despejo de suas moradias, insegurança alimentar, morte.

No Brasil, a cada dois minutos uma mulher sofre violência doméstica. As opressões e violências contra as mulheres também alcançam índices devastadores. Durante a pandemia, uma mulher é morta a cada nove horas no Brasil. O contexto de isolamento imposto pelas medidas de contenção ao vírus e a tensão gerada pelo confinamento tende a desencadear conflitos. As mulheres que já sofriam algum tipo de violência, nesse cenário pandêmico passam mais tempo em contato com aquele que as oprime (88,8% dos casos de feminicídio são perpetrados por atuais ou ex-companheiros). Infelizmente, esse mesmo cenário impediu muitas vezes a denúncia, porque para muitas, não há um lugar seguro para onde ir, a dependência financeira e psicológica, em alguns casos envolvendo os filhos, faz com que mulheres vítimas de violência sejam levadas a manter um relacionamento que as fará vítimas de feminicídio. 

O índice de estupros é assustador: 181 estupros são registrados diariamente no Brasil e desses, 85,7% contra mulheres. Em média, 7 mulheres são estupradas, a cada hora. A causa não é o “horário”, não é a “roupa”, tampouco o “comportamento”, pois a culpa nunca é da vítima. Em 84,1% dos casos, o estuprador é conhecido da vítima, pessoa de confiança ou da própria família.

Devemos comemorar o histórico de lutas e conquistas, mas atentas e atentos (todos homens são bem-vindos nessa luta) ao ciclo de violência a que muitas mulheres estão condicionadas. É urgente se posicionar. Quando não defendemos a equidade de gênero contribuímos para que o fosso da injustiça social se aprofunde. Como educadoras e educadores, devemos disseminar os canais de denúncias, refletir com aqueles com os quais convivemos os pequenos sinais que apontam para indícios de diferentes violências. 

Por fim, apresentamos a narrativa da Cotinha, dos seus trinta anos de trabalho no Instituto Federal de Educação (IFMT) – Campus Cáceres, à época de Escola Agrícola, de todas as dificuldades, do “pular a janela para poder estudar” porque, certamente, lugar de mulher não era na escola, da dor de perder 4 filhos, deve nos inspirar à homenagem, mas de reconhecer a existência de tantas histórias semelhantes à dela e que nos revigoram cotidianamente para as lutas. 

É pela Vida das Mulheres

 

CONHEÇA AS AUTORAS

 Inêz Montecchi é professora do IFMT Campus Cácere s, diretoria do Sindicato dos trabalhadores do IFMT – SINASEFE.

 

 

 

Giulianna Zilocchi Miguel é professora no curso de Agronomia na

UNEMAT e diretora da Adunemat subseção Cáceres.

 

 

 

 

Luciene Neves é professora no curso de Educação Física na UNEMAT, diretora da Adunemat subseção Cáceres e integra o Movimento LGBTi+ de Cáceres